Veja bem, vou te contar uma coisa que eu levei mais de sessenta anos para entender, e você, se prestar atençãoTanto faz se você tem doze anos ou oitenta e dois. Na hora de começar a entender, todo mundo tem a mesma idade.
Na cidade onde eu nasci choveu durante quatro meses e onze dias sem parar, e foi no meio dessa chuva que meu tio Evaristo descobriu que não sabia onde estava. Ele morava na mesma casa fazia quarenta anos. Saiu numa terça-feira para comprar pão, parou na esquina da farmácia e ficou ali, de guarda-chuva aberto, sem conseguir dizer se estava indo ou voltando. O povo riu. Disseram que era a umidade, que a chuva amolecia a cabeça dos velhos. Eu achei que era outra coisa. Meu tio tinha feito tudo no automático por tantos anos que um dia perdeu o ponto do mapa em que estava pisando.
Isso acontece com muito mais gente do que você imagina. Só que a maioria continua existindo.
Como encarar a realidade sem culpa?
Encarar a realidade quer dizer olhar para a sua vida do jeito que ela está hoje. Do jeito que está, repara. Nem do jeito que devia estar, nem do jeito que estava quando você tinha vinte anos e o joelho não doía.
A conta atrasada. O filho que parou de te contar as coisas. O casamento que virou uma troca de recados sobre boleto e horário de escola. O corpo pedindo para deitar às três da tarde.
Diante disso, quase todo mundo foge. Foge para o celular, foge para o trabalho até as nove da noite, foge para aquela cerveja que era uma e virou o jeito de terminar o dia. E existe um jeito de fugir que parece o contrário de fugir, que é se culpar.
A culpa engana porque tem cara de seriedade. O sujeito passa a madrugada listando tudo o que fez de errado e acha que está sendo honesto consigo mesmo. De manhã está no mesmo lugar, só que mais cansado. A culpa fica perguntando por que você é assim, e essa pergunta não tem fundo, você cai nela e não chega a lugar nenhum. A pergunta que tira a pessoa do lugar é mais chata e mais curta: e agora, o que eu faço com isso que está aqui?
Coragem, eu aprendi, quase nunca tem tamanho de filme. É o homem parado com o carro na garagem, motor desligado, quinze minutos olhando para a porta da cozinha. A coragem é ele abrir a porta do carro. Só isso. Abrir a porta e entrar em casa sabendo o que vai encontrar.
Eu já fiquei mais de quinze minutos naquela garagem. Mais de uma vez.
Por que sempre há alguém que depende de você
Quando eu tinha a sua idade, meu pai perdeu o emprego na fábrica de gelo e passou onze dias sem contar para ninguém. Saía de casa às seis com a marmita, sentava num banco da praça debaixo de uma amendoeira, voltava às cinco e meia com a camisa seca. No décimo segundo dia minha mãe encontrou a marmita intacta escondida atrás do filtro de barro. Naquela noite ele sentou na cabeceira da mesa, pediu que a gente parasse de comer e contou.
Lembro mais desse jantar do que do dia em que ganhei minha primeira bicicleta. Foi ali que eu vi meu pai voltar.
Há sempre alguém. Um filho, uma esposa, um marido, a mãe que liga toda noite às oito e meia para perguntar se está tudo bem. Essas pessoas não são um peso para você carregar com culpa. São o motivo de você não poder ficar parado na esquina da farmácia com o guarda-chuva aberto. Quem depende de você quer, quase sempre, uma coisa muito menor do que você imagina. Quer você inteiro na mesa do jantar, sabendo o que está fazendo da vida.
E isso, menino, já dá trabalho para uma existência inteira.
O homem que escreveu um livro conversando com o filho
Agora vou te contar de um homem que viveu há uns mil e seiscentos anos, numa terra de oliveiras e poeira vermelha no norte da África. Ele era professor e falava bonito. Cobrava caro para ensinar os filhos dos ricos a convencer qualquer um de qualquer coisa, e era bom nisso, tão bom que foi ensinar nas maiores cidades do mundo de então, uma depois da outra, sempre atrás de um lugar mais alto.
O que pouca gente lembra é que esse homem teve um filho muito cedo, com uma mulher com quem viveu uns quinze anos e cujo nome ele nunca escreveu em lugar nenhum. O menino recebeu um nome que, na língua deles, queria dizer dado por Deus. Durante muito tempo o pai foi um pai pela metade. O corpo estava em casa e a cabeça estava na próxima cidade, no próximo discurso, no próximo aplauso.
Um dia ele mudou de vida. E fez uma coisa que quase nenhum livro de escola conta.
Voltou para a cidadezinha onde tinha nascido, sentou com o filho, que estava com dezesseis anos, e os dois conversaram durante dias sobre uma pergunta só: como é que uma pessoa aprende alguma coisa? O pai anotou a conversa inteira e fez dela um livro. Mais tarde escreveu que as respostas do menino ali dentro eram mesmo do menino, que ele não tinha inventado nada para enfeitar o filho.
A conclusão do livro é estranha. Os dois chegam à ideia de que as palavras não colocam a verdade dentro da cabeça de ninguém. Palavra só aponta, como um dedo esticado para a lua. Quem tem que olhar e ver é você, lá dentro, com a luz que você tem. Nenhum professor do mundo enxerga no seu lugar.
Pouco tempo depois o menino morreu. Tinha uns dezessete anos. O pai escreveu muito pouco sobre isso, quase nada, e eu entendo.
Repara no que esse homem deixou. De um lado, a certeza de que ninguém vai ver a verdade por você. Do outro, um pai sentado ao lado do filho durante dias, perguntando, ouvindo, anotando. As duas coisas estão no mesmo livro e uma não apaga a outra. Eu passei anos achando que tinha que escolher entre elas.
Tem mais uma coisa desse homem que me tira o sono, das boas. Perto dos setenta e dois anos, já velho e cansado, ele pegou tudo o que tinha escrito na vida, noventa e três obras, e releu uma por uma. E foi anotando, com calma, onde tinha errado. Não queimou nada. Não fez discurso de arrependimento. Corrigiu. Três anos depois um exército que veio pelo mar cercou a cidade dele, e ele morreu de febre durante o cerco, com os portões fechados.
Este homem tinha um nome: Santo Agostinho.
Os livros estavam revisados. Não sei se isso consola. Para mim consola um pouco.
A Travessia: as nove etapas do caminho
Naquela noite da chuva forte, meu avô desenhou um caminho no verso do calendário da farmácia, com um toco de carvão do fogão. Hoje existe uma escola que desenhou esse caminho com mais cuidado do que meu avô, o Universo Protagonista. A este caminho eles chamam de Travessia. São nove etapas, e elas aparecem em sequência, uma depois da outra.
- Reconhecer. Onde eu estou agora? Curto, objetivo e direto.
- Examinar. Como eu cheguei aqui? O que nisso é meu, o que não é.
- Escolher. Entre tudo o que dá para fazer, o que bem vem primeiro.
- Praticar. Fazer um pouco, todo dia, principalmente nos dias sem vontade, que são a maioria deles.
- Provar. A vida vai testar a sua escolha. Sempre testa, e quase nunca naquele dia que você esperava.
- Produzir. Alguma coisa sai das suas mãos e se materializa. Uma conversa difícil que aconteceu, uma dívida que diminuiu, um mau hábito que ficou para trás.
- Frutificar. O que você fez, produziu e começa a servir a outras pessoas.
- Revisar. Olhar para trás no caminho e anotar onde errou, como o velho africano com os seus noventa e três livros.
- Recomeçar. Voltar ao primeiro passo. Só que de um ponto um pouco mais alto.
O erro mais comum é pular alguma etapa. O sujeito quer colher fruto sem ter reconhecido nada, e aí planta em terreno que nem sabe qual é. Outro erro, mais discreto, é ficar morando eternamente numa etapa só. Tem gente que passa dez anos examinando e nunca escolhe.
E há um hábito que acompanha o caminho inteiro, do primeiro ao último passo: o exame de cada dia. Cinco minutos à noite, antes de dormir, olhando para o que aconteceu.
Que ferramentas levar na mochila
Ninguém atravessa um rio sem nada nas costas. Eu levaria isto:
- Um caderno barato e uma pergunta para a noite. Algo assim: o que eu fiz hoje com o pedaço da vida que me foi confiado? Escreva a resposta, mesmo que seja do seu jeito.
- O mapa, para saber em que etapa você está trilhando. Quem não sabe onde está acha que todo dia é o primeiro.
- Uma pessoa que caminhe ao seu lado e tenha licença para te dizer a verdade sem pedir desculpa. Uma basta. Duas já é luxo.
- Os rostos de quem depende de você. Meu pai andava com uma foto nossa dentro da carteira, gasta nas pontas. Eu achava meio ridículo. Hoje entendo completamente o porquê.
- Uma virtude por vez. Uma só. Paciência com o filho durante trinta dias, por exemplo, antes de querer consertar todo o resto.
O Guia do Protagonista, que o UP distribui gratuitamente, ajuda a organizar essa mochila. E os vídeos, a newsletter e os artigos da escola funcionam como aquele amigo que bate no vidro do carro quando você já está há quinze minutos parado na garagem. Ele não abre a porta por você. Bate no vidro te convidando a acordar para a vida.
Protagonistas não andam sozinhos, e ninguém vem nos salvar
Passei boa parte da vida esperando um telefonema. Alguém que fosse aparecer com a solução, um emprego, um conselho, uma herança de um parente esquecido do outro lado do país. O telefone tocou algumas vezes, mas nunca era isso.
É meio óbvio, mas ninguém vem te salvar. Essa é a parte dura e eu não vou amaciar para você.
Só que no meio dessa espera eu tinha amigos, tinha a minha avó, tinha um vizinho que consertava rádio e me ensinou a soldar. Eu não via essas pessoas como companhia de caminho porque estava ocupado demais olhando para a estrada, esperando o salvador aparecer na curva. Elas não iam me salvar. Iam andar comigo, e isso era outra conversa, que eu demorei a entender.
Ainda não sei direito onde termina uma coisa e começa a outra. Desconfio que ninguém sabe.
Como dar o primeiro passo, hoje
Hoje à noite, antes de dormir, pega uma folha qualquer e escreve uma frase só, começando com estas palavras: hoje eu estou. Termine como for verdade. Não precisa mostrar para ninguém.
Amanhã, escolha uma coisa pequena que você vem adiando dentro de casa. Uma gaveta, uma ligação para a sua mãe, uma conversa de dez minutos com o seu filho sem televisão ligada. Faça essa coisa. Escolha uma!
Só isso? Sim! Só isso. O resto vem na sequência, uma etapa depois da outra, e você vai saber em qual delas está porque vai se lembrar.
Meu tio Evaristo, aquele da esquina da farmácia, viveu mais nove anos depois da chuva. Nunca contou para ninguém se descobriu, afinal, se estava indo ou voltando naquela terça-feira. No último inverno ele parou de comprar pão e começou a assar em casa, sozinho, com uma receita que ninguém sabia de onde tinha vindo. A gente achou que era mania de velho.
Eu ainda não tenho certeza.
Perguntas Frequentes
É o caminho de nove etapas que o UP usa para organizar a vida em busca do bem: reconhecer, examinar, escolher, praticar, provar, produzir, frutificar, revisar e recomeçar. As etapas seguem em ordem e o ciclo se repete.
Trocando a pergunta. Em vez de perguntar por que você é assim, pergunte o que vai fazer com o que está diante de você. A culpa prende no passado. A responsabilidade pede um próximo passo concreto.
Reconhecer onde você está, agora. Escrever numa frase como está a sua vida hoje, sem enfeitar e sem piorar, já é o começo da Travessia.
Não. Ninguém vai fazer por você, mas protagonistas não andam sozinhos. Uma pessoa de confiança que te diga a verdade e uma escola que mostre o mapa fazem muita diferença.
O UP é uma escola de formação de caráter fundamentada na filosofia clássica, com Platão, Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino como mestres principais. A proposta é organizar a vida para a busca do bem, com prática diária.
Para saber mais
- Desenvolvimento pessoal como filosofia (o Mapa do UP)
- Sentido da vida: por que precisamos de um Bem Supremo
- O conforto da ilusão: por que fugir da verdade custa tão caro?
- Hamartia: o erro de julgamento que derruba até os homens decentes
- Metodologia do Universo Protagonista
- Guia do Protagonista (gratuito)
Referências bibliográficas
- AGOSTINHO, Santo. Confissões. Livros IV, VI e IX (sobre o filho, a mulher com quem viveu e a carreira de retórico).
- AGOSTINHO, Santo. O Mestre (De Magistro). Diálogo com o filho Adeodato, escrito por volta de 389.
- AGOSTINHO, Santo. Retratações (Retractationes). Revisão de suas 93 obras, escrita entre 426 e 427.
- BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Rio de Janeiro: Record.
- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livros II e III (virtude como hábito e coragem).


