Por que temos que trabalhar?

Por que temos que trabalhar? Uma crônica do Universo Protagonista sobre o valor do trabalho como serviço ao outro e escola de virtude.

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Toda segunda-feira alguém faz essa pergunta com o despertador na mão. Por que temos que trabalhar? Quase ninguém espera resposta. Talvez porque a pergunta certa venha escondida embaixo dela, e seja outra: para quem?

O padeiro que acordava a cidade

Em Santa Rita do Mucuri, cidade difícil de encontrar no mapa, o padeiro Teodoro acordou às três da manhã durante quarenta e um anos, e por isso a cidade inteira aprendeu a confundir o cheiro do pão com o próprio amanhecer. Os galos cantavam atrasados. Aqueles que sofriam de insônia sabiam que a noite tinha acabado quando a fumaça do forno subia torta por cima da torre da matriz, e os boêmios da praça voltavam para casa antes da luz, envergonhados, convencidos de que Teodoro os vigiava pela janela enquanto a massa era sovada.

Ele não vigiava ninguém. Pensava nos fregueses. Sabia que dona Celeste levava o pão mais queimado porque tinha poucos dentes e gostava de molhá-lo no café até desmanchar, que o juiz aposentado pedia dois e só comia um, e que o menino dos Ferraz, oito anos e uma tosse que nenhum xarope curava, aparecia às seis com uma moeda quente de tanto ser apertada na mão. Para esse menino Teodoro guardava o pão do canto da forma, o mais macio. Nunca contou isso a ninguém, nem à mulher.

O filho, Davi, cresceu odiando aquele horário. Achava o pai um homem gasto por uma cidade que nunca lhe disse obrigado. Aos dezenove anos foi para a capital com a promessa solene de não tocar em farinha pelo resto da vida, arrumou emprego num escritório de cobrança e ali aprendeu a medir cada hora em dinheiro e a descobrir, todo dia cinco, que o dinheiro era menor do que ele valia. Passou doze anos descobrindo a mesma coisa.

Teodoro morreu numa quinta-feira de chuva, com as mãos ainda brancas. E aconteceu o que os mais velhos de Santa Rita contam até hoje, baixando a voz: durante nove dias a cidade continuou acordando às três da manhã com cheiro de pão que ninguém assava. Dona Celeste molhou no café um pão que não existia. Na porta fechada da padaria, alguém deixou uma moeda em cima do degrau, e ela ficou ali uma semana inteira sem que nenhum menino da rua tivesse coragem de pegá-la.

Davi voltou para o enterro e ficou para a missa de sétimo dia. Foi na saída da igreja que seu Aristeu, o relojoeiro que cuidava dos ponteiros da matriz desde antes de a cidade ter luz elétrica, segurou o braço dele e disse, sem explicar nada, que relógio bom é o que marca a hora dos outros, e que ninguém fabrica relógio para ele ficar bonito numa gaveta. Davi achou aquilo conversa de velho.

A hora do pai

Voltou para a capital achando que tinha enterrado o pai e o assunto junto. Não tinha. Desde a madrugada do décimo dia passou a acordar às três em ponto, sem despertador, com o nariz cheio de um cheiro que não vinha de lugar nenhum. Tentou chá de camomila, tentou remédio de farmácia, tentou beber até tarde, e às três estava de olhos abertos, olhando o teto como quem espera uma ordem.

No quarto mês o escritório de cobrança fechou as portas devendo dois salários a todo mundo. Davi, que não sabia fazer outra coisa além de cobrar, descobriu que sabia dirigir. Pôs o carro velho num aplicativo de corridas e, já que o corpo teimava em acordar na hora do pai, foi trabalhar de madrugada.

Nos primeiros meses fazia contas. Corrida curta, gasolina, a parte do aplicativo, o desgaste do pneu. Sobravam uns dois reais aqui, três ali, e a conta dava sempre o resultado que dava no escritório. Menos do que ele valia.

Numa terça de neblina, às cinco e quarenta, o aplicativo mandou buscar um passageiro na porta de um prédio do centro. Era um homem alto, de terno, a gravata ainda frouxa, uma pasta de couro no colo. Sentou atrás, olhou o nome do motorista na tela do celular e depois ficou encarando Davi pelo retrovisor por um longo tempo. Depois de um longo silêncio perguntou se ele era de Santa Rita.

Era o menino dos Ferraz.

Advogado, contou, com audiência às sete do outro lado da cidade, e o primeiro ônibus só passava às seis e meia. Contou rindo que tinha passado a infância inteira convencido de que o pão da padaria era mais macio só para ele, por sorte, e que só depois de adulto entendeu que alguém escolhia. Contou que a mãe jurava até morrer que a tosse tinha ido embora por causa daquele pão, e que nenhum médico conseguiu desmenti-la. Davi não disse nada. Dirigiu o resto do caminho com as mãos firmes no volante, sentindo de novo o cheiro, agora vindo de algum lugar.

Na porta do fórum o homem desceu, ajeitou a gravata e subiu a escada seco, inteiro, quinze minutos adiantado. Se tivesse ido a pé, teria saído de casa no escuro e chegado suado e amarrotado diante do juiz. A tela anunciou o valor da corrida, que era pouco. Pela primeira vez em quatro meses, Davi não fez a conta.

A corrida tinha sido igual a todas as outras. O motorista, não.

Ninguém vai vir te salvar

Davi passou doze anos esperando que alguém reconhecesse o que ele valia. Um chefe, um aumento, um mundo mais justo que um dia batesse à porta do escritório de cobrança. No UP repetimos uma frase que irrita muita gente: ninguém vai vir te salvar. Ninguém veio salvar Davi. O escritório fechou, o pai morreu, o salário atrasado nunca foi pago.

O que mexeu alguma coisa nele chegou pelo banco de trás de um carro velho, às cinco e quarenta de uma terça-feira. E só chegou porque ele, enfim, olhou para quem estava ali.

Desconfio que é assim com quase todo mundo. A gente gasta anos pedindo ao trabalho que nos dê um sentido, como quem cobra uma dívida, e o sentido fica parado no retrovisor, esperando ser visto.

A cidade que nasce da necessidade

Há uns vinte e quatro séculos, Platão escreveu que a cidade nasce porque nenhum de nós se basta. Um planta, outro constrói, outro costura, outro cura, e cada um precisa do trabalho dos outros para viver. A cidade, nessa leitura, é uma rede de serviços prestados entre pessoas que precisam umas das outras. Tire o serviço e o que sobra é um amontoado de gente reclamando, esperando que alguém venha salvá-los.

Santa Rita do Mucuri era exatamente isso. Dona Celeste precisava de pão macio de tão queimado, o juiz precisava de dois pães para comer um, o menino precisava de um pão que curasse tosse. Teodoro precisava deles também, embora talvez nunca tenha dito. Quando ele morreu, a cidade continuou sentindo o cheiro por nove dias porque um serviço feito durante quarenta e um anos não some na mesma hora que o homem.

Há quem chame isso de sentido transcendente do trabalho, e a expressão me parece exata. Quando o único sentido do meu trabalho é o salário, ele fica medido em números, e quase sempre vou achar que o número é menos do que eu mereço. Essa conta não fecha nunca. Davi sabe. Quando o sentido passa a ser pôr alguma ordem na vida de alguém, servir, facilitar, poupar um esforço, fazer um advogado chegar seco a uma audiência, o mesmo trabalho pesa de outro jeito.

O trabalho termina no outro

Santo Agostinho, bispo de Hipona no século cinco, escreveu um livro inteiro para repreender monges que se recusavam a trabalhar com as mãos sob o pretexto de que estavam rezando. Achava aquilo preguiça vestida de santidade. Oito séculos depois, São Tomás de Aquino enumerou para que serve o trabalho: tirar dele o sustento, afastar a ociosidade, dar governo ao corpo e ter com que ajudar quem precisa.

Repare no último item. Mesmo para quem tinha feito voto de pobreza, o trabalho terminava no outro. O pão do canto da forma não aparecia em nenhuma conta da padaria.

Uma vez li a frase “Escolhe um trabalho de que gostes e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida”, que disseram ser de Confúcio. Teodoro acordou às três da manhã por quarenta e um anos e eu duvido muito que tenha gostado de todas essas madrugadas. Houve invernos em que a massa não crescia, dias de febre, a morte da mulher. Ele trabalhou nesses dias também.

O que ele gostava era do compromisso do servir: saber, por exemplo, que menino que tirava a moeda quente do bolso estaria lá, religiosamente todos os dias.

Gostar ajuda, claro. Só que o gosto, sozinho, é um sentimento que vai e volta conforme o tempo e o humor, e trabalho apoiado só nisso desaba na primeira semana ruim. O que segura a pessoa de pé numa madrugada de inverno é saber que alguém vai abrir a porta às seis esperando encontrar aquilo que você faz: o pão no balcão.

Então, por que temos que trabalhar?

Aristóteles dizia que uma coisa é boa quando cumpre bem aquilo para que existe, e que nos tornamos construtores construindo, justos praticando a justiça. A virtude não cai do céu nem nasce de um curso de fim de semana. Ela se forma na repetição de um gesto certo, feito muitas vezes, quase sempre sem ninguém olhar. Seu Aristeu disse a mesma coisa com um relógio, na saída da igreja, e Davi levou meses para entender que aquilo não era conversa de velho.

O trabalho é talvez o lugar mais comum onde isso acontece. É ali que a paciência é testada todo dia, que a palavra dada precisa ser cumprida, que a preguiça cobra a conta na frente de testemunhas. Quem trabalha bem vai se tornando alguém em quem os outros podem se apoiar. E quem não produz nada acaba, cedo ou tarde, dependendo de alguém que produz. Sei que isso soa duro. Penso que é verdade mesmo assim.

No Universo Protagonista chamamos de Travessia o caminho que cada pessoa faz para governar a própria vida segundo a verdade e o bem. Há nesse caminho um momento de produzir e outro, mais adiante, de frutificar. Muita gente para no primeiro. Produz, entrega, recebe, e nunca chega a perguntar quem foi alimentado pelo que ela fez. Davi é o nosso exemplo. Ficou doze anos parado ali esperando alguém lhe salvar.

Reconheça onde você está, agora

Faço a pergunta para você do jeito mais simples que consigo. Amanhã, quando terminar o seu dia de trabalho, quem vai estar um pouco melhor porque você trabalhou? Tente lembrar de um rosto. Não precisa ser alguém importante. Pode ser o cliente que você nunca viu, o colega que não precisou refazer o seu serviço, o filho que comeu porque você foi ao trabalho que você não está gostando.

Se o rosto aparece, talvez a segunda-feira tenha um peso diferente.

Se não aparece nenhum, também é uma informação importante. Talvez você esteja no lugar errado. Talvez esteja no lugar certo e tenha esquecido para quê está ali todos os dias. Não sei dizer qual dos casos é o seu, e desconfio de quem diz que sabe.

Confesso que eu mesmo não consigo responder essa pergunta todos os dias. Há manhãs em que o rosto some e sobra só a lista de tarefas, o e-mail atrasado, a conta do mês, o cliente que cobra algo que era para ter sido entregue ontem.

Davi ainda dirige de madrugada, pelo que me contaram. A padaria de Santa Rita continua fechada, mas há quem jure que em algumas noites de neblina uma fumaça sai da chaminé por volta das três. Ninguém foi conferir. Eu também não.


Para saber mais

Jorge Quintão – UP

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