Sentido da vida: por que precisamos de um Bem Supremo

Santo Agostinho, a ordem dos desejos e a diferença entre ter muitos bens e saber para que eles servem

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Quando a existência perde um bem maior para o qual se orientar, desejos e escolhas param de formar unidade. Falar de sentido da vida, aqui, tem pouco a ver com motivação e muito a ver com ordem: saber o que vem antes, o que vem depois e o que não deveria estar mandando em nada. Santo Agostinho nos ajuda a entender por quê.

A casa de dezenove quartos

No dia em que enterraram Aurélio Macena, a vila descobriu que a casa dele tinha dezenove quartos e nenhuma sala. Ele começara a construção no inverno em que o rio subiu até a porta da igreja, com a ideia modesta de um cômodo e um alpendre, e teria parado ali se não tivesse desejado, no mês seguinte, um lugar para guardar a sela. Depois quis um quarto para o filho que ainda não existia e nasceu mulher. Quis um quarto para o piano encomendado a um vendedor que morreu na estrada antes de entregar, e o quarto ficou quarenta anos vazio, com a acústica perfeita de um instrumento que nunca chegou, de modo que nas tardes de vento os vizinhos juravam ouvir escalas.

Aurélio acrescentava um cômodo cada vez que desejava alguma coisa, e como desejava muito, a casa cresceu para os fundos, para os lados e por cima, com escadas que davam em portas trancadas e corredores que terminavam na parede. Ninguém nunca decidiu para onde a porta da frente deveria apontar. Ela apontava para o cemitério por acidente de cálculo, e foi assim, entre a cozinha e um quarto de hóspedes que jamais hospedou alguém, que ele passou os onze últimos meses procurando o aposento onde havia deixado, em 1952, o retrato do pai.

Encontraram-no sentado no chão de um corredor, com a mão ainda no bolso do casaco. Dona Iná, que o avisara durante trinta anos, disse ao padre sem levantar a voz a frase que a vila repetiria por duas gerações: ele construiu tudo o que quis e nunca decidiu para que servia a casa.

Conheço gente assim, com a agenda inteira preenchida até março e nenhuma ideia de para onde está indo. Eu mesmo já fui essa pessoa. O UP vem me ensinando coisas valiosas que me fizeram abandonar coisas, pessoas e desculpas sem sentido. Prazos cumpridos, contas pagas, curso terminado, aniversário do sobrinho comparecido. E aí, numa terça qualquer, no carro parado numa fila que não anda, aparece uma pergunta de que estraga o dia: para quê?

Ninguém reclama de falta de coisa para fazer. O incômodo é outro: falta uma ordem que diga quais dessas coisas merecem vir antes. Quando tudo parece importante, nada é superior de fato, e quem acaba conduzindo a vida é o que chegar primeiro na porta. A urgência. O medo de perder algo. O medo de uma vida cheia de tarefas, mas nenhuma com sentido verdadeiro.

O sentido da vida começa pela direção

Agostinho percebeu uma coisa que eu levei anos para aceitar: o problema não está em desejar. Está em desejar sem ordem.

Queremos segurança, reconhecimento, descanso, conhecimento, queremos ser amados, e nada disso é ruim. A confusão começa quando algo que deveria ocupar um lugar intermediário sobe ao lugar mais alto. Dinheiro serve a muitos bens. Vira outra coisa quando passa a decidir tudo. Reconhecimento é agradável, e é bem diferente quando alguém precisa dele para acreditar que existe.

A pergunta deixa de ser “o que eu quero” e vira: isso que eu quero está apontando para qual bem? Isso muda a arquitetura inteira, e uso a palavra arquitetura de propósito.

O coração inquieto e os bens que não bastam

Existe no ser humano uma inquietação que os bens limitados não resolvem. Você consegue aquilo que durante meses pareceu indispensável e, seis semanas depois, a pergunta está de volta, intacta, como se nada tivesse acontecido. O quarto do piano continua com a acústica perfeita, mas vazio.

Não estou dizendo que bens materiais, trabalho ou afeto devam ser desprezados. Nenhum deles carrega sozinho o peso do sentido da vida. São bens. O Bem Supremo é outra coisa, e a distinção decide muito mais do que parece.

Ninguém precisa abandonar o mundo concreto para viver melhor. Precisa parar de dar o trono a quem não é rei. O trabalho continua sendo trabalho. Dinheiro continua sendo dinheiro.

Talvez o que falte não seja mais uma meta

Quando a direção some, quase todo mundo reage do mesmo jeito: estabelece mais objetivos. Lista nova, planilha nova, meta anual, indicador. Aurélio também achava que faltava um cômodo.

Só que dá para ser disciplinado e andar depressa na direção errada. Dá para cumprir tudo sem entender por que se cumpre. Dá para alcançar exatamente o que se planejou e descobrir, no fim, que o destino escolhido não respondia às perguntas que importavam. Isso é mais comum do que confessamos.

Às vezes o que falta é hierarquia entre os bens. Antes de perguntar como chegar mais rápido, talvez seja o caso de perguntar se vale a pena chegar naquele lugar.

O que uma sociedade coloca no alto

Aqui a coisa cresce de tamanho. Se cada pessoa precisa ordenar a própria vida, uma sociedade também revela o que considera superior. Não pelo que declara. Pelo que admira.

Cultura, nesse sentido, não se resume a música, literatura e arquitetura. Isso é manifestação. Cultura é o que uma comunidade acha digno de ser buscado.

Olhe para quem é apresentado aos jovens como admirável. Olhe para o que recebe prestígio, para aquilo diante do que as pessoas entregam tempo e atenção sem pestanejar. Está tudo lá, a resposta sobre o que merece estar no alto, escrita sem que ninguém tenha escrito. E quando essa resposta some, o espaço não fica vazio um minuto sequer.

Aristóteles, São Tomás de Aquino e o problema dos fins

Aristóteles já tinha notado que nossas ações tendem a algum bem. Estudamos por alguma razão. Economizamos por alguma razão. Sempre há um fim orientando a ação, mesmo quando nunca paramos para examiná-lo.

São Tomás levou adiante: os fins intermediários precisam estar subordinados a um fim último, ou a existência se parte em partes que não conversam. Dezenove quartos, nenhuma sala, corredores que terminam na parede. Uma casa também pode ser construída sem planta, e o resultado costuma ser esse.

Alguém pode ter vigor, competência e uma biblioteca inteira na cabeça e usar tudo isso para quase nada. Sabedoria tem menos a ver com acumular e mais com reconhecer o que merece orientar aquilo que já se sabe. Escrevo isso com certo desconforto, porque a segunda parte é bem mais difícil que a primeira e não tem atalho.

Do instinto à vida propriamente humana

É esse o movimento que o Universo Protagonista tenta descrever: sair da esfera instintiva, amadurecer no domínio da razão e das virtudes, e se abrir para uma dimensão que ultrapassa o indivíduo.

O impulso não precisa ser negado, precisa ser ordenado. O instinto diz “eu quero”. A razão pergunta se aquilo é bom. E existe uma terceira pergunta, menos confortável: esse bem me aproxima do que é superior?

Os quatro pilares do UP dentro dessa subida

Vigor é o corpo educado para agir, trabalhar e aguentar, e é o pilar de que mais gente foge. Carisma tem a ver com paz, porque a vida não acontece no isolamento e relação sem verdade não sustenta ninguém. Conhecimento amplia liberdade pela razão mais simples do mundo: quem não conhece a realidade é presa fácil. E sabedoria orienta a prosperidade, que é onde mora a confusão mais frequente, a de achar que acumular já é discernir.

Vida, paz, liberdade e prosperidade deixam de ser quatro objetivos soltos numa parede. Viram um horizonte.

Qual é o seu bem supremo na prática

Responder isso filosoficamente é importante. Tem um jeito mais desconcertante: observar as próprias escolhas. O que dizemos valorizar quase nunca coincide com o que governa nossas decisões, e a distância entre as duas coisas costuma ser embaraçosa.

Pelo que você entrega seu tempo com mais facilidade? O tempo não mente, nem quando a gente mente. O que você mais teme perder, e por que justamente isso? O medo denuncia o que está no alto. Que pessoa suas escolhas estão formando, sem que você tenha pedido? Toda decisão resolve algo hoje e educa o caráter para depois.

E a última, que eu não consigo responder rápido: se você alcançasse hoje tudo o que deseja, isso bastaria para dizer por que sua vida merece ser vivida?

Deixe a pergunta em aberto por alguns dias. Ela vai te atormentar por si só.

O protagonista precisa de um norte

Ser protagonista tem pouco a ver com fazer o que se quer. Isso é obediência ao impulso com nome melhor. O protagonista aparece quando consegue perguntar ao próprio desejo se ele merece ser obedecido, e aguentar a resposta.

Liberdade exige razão e caráter para reconhecer qual alternativa merece adesão. Sem um norte, toda energia vira dispersão, conhecimento vira vaidade, liberdade vira capricho. O Bem Supremo não destrói os bens menores. Põe cada um no lugar que é dele, e isso quase sempre dói um pouco.

A porta que aponta para o lugar errado

Quem sente um vazio costuma reagir acrescentando: mais dinheiro, mais experiência, mais estímulo. Faz sentido, mas raramente funciona.

Mas e se não estiver faltando nada? E se estiver faltando direção para tudo o que já está aí? Dá para ter quase todos os elementos de uma boa vida e nenhuma ordem capaz de uni-los.

O sentido da vida raramente chega pronto. Ele fica visível aos poucos, quando as escolhas param de ser aleatórias. Quando o corpo passa a servir à vida. Quando o conhecimento serve à liberdade em vez de servir à vaidade de quem o carrega. E então surge a pergunta inevitável: qual é o bem diante do qual todos os outros encontram seu lugar?


Organização: Jorge Quintão – UP

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