Viver ou existir?

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Imagine a cena. Ela se repete o tempo todo, em qualquer tela, a qualquer hora do dia. Um sujeito ergue um haltere na academia, vira o rosto para a câmera no instante exato da careta e escreve embaixo a senha: #TaPago.

Por muito tempo achei que esse incômodo vinha da vaidade do gesto. Hoje sei que vem da fila de gente que para diante daquilo, assiste com atenção e curte. A vaidade ao menos se entende. A curtida, não. E por trás de uma cena tão boba mora uma pergunta que não envelhece: estamos vivendo ou só existindo?

Faz alguns anos que escolhi olhar com desconfiança o enxame de salvadores que a internet despejou sobre nós. Chegaram aos milhares. Multiplicaram-se em cada esquina com a desenvoltura de uma praga, e todos trazem variações da mesma oferta: sabem com exatidão aquilo que você ignora. O assunto é indiferente. Existe um especialista para cada centímetro quadrado da sua vida, do sono ao casamento, do jeito de respirar, ao saldo da conta no fim do mês, e o resultado desse cerco, lento e eficiente, foi nos convencer de que não damos conta de nós mesmos sem alguma ajuda paga. Mas “essa oferta termina em 15 minutos” se você não aproveitar. Depois disso já era.

Picaram o conhecimento em pequenas lascas. Estreitaram a sabedoria em nichos tão minúsculos que o homem comum, diante da prateleira de gurus, terminologias, adjetivos e hacks terminou por se sentir um perfeito idiota.

Desconfio que nada disso teria colado se antes não tivéssemos cometido o erro mais grotesco de nossas vidas que foi nos afastar de nós mesmos. Quando alguém não se reconhece mais por dentro, qualquer voz de fora vira autoridade. Foi nessa fenda que entrou a regra não escrita da nossa época: quem não é visto não é lembrado. Repetida o bastante, ela fez o que regras assim fazem. Viramos personagens de nós mesmos. Roteiristas do nosso cotidiano e atores já cansados de uma novela que ninguém assiste.

Viver ou existir

Existir é fácil. Basta respirar e deixar o tempo nos levar. Viver pede uma atitude sem registro, porque acontece justamente onde as câmeras não alcançam. Uma conversa com o filho no fim da tarde. A paciência com a mãe que envelhece e repete a mesma história pela terceira vez. O carinho nos pormenores com quem dividimos a casa. Nada disso rende métrica, e quase nada disso vira corte de vídeo. É nesse território sem graça, sem plateia que a vida de verdade insiste em acontecer. O resto são números para alimentar algoritmos.

Pertenço a uma geração que viu o mundo antes e depois do surgimento das telas em tudo. Sei de onde as coisas vieram, e por isso assisto com algum pavor para onde elas estão indo. Tenho problema com câmeras, embora passe quase a vida inteira atrás delas, produzindo, documentando, ajustando a luz para que alguém apareça. Talvez por isso desconfie tanto da facilidade com que tantos se expõem. Quem escolheu uma vida simples talvez não tenha nada de espetacular para mostrar. E daí? Faz tempo que confundimos o que merece ser visto com o que merece ser vivido.

As virtudes não pedem licença

É aqui que encontro a única coisa que ainda me parece firme. As virtudes têm um defeito maravilhoso: são o que são, não negociam, não se atualizam conforme a tendência da vez. Posso ignorá-las à vontade. O que não posso é ignorar as consequências de ignorá-las, porque essas chegam pontuais, sem bater na porta. Coragem, prudência, temperança, justiça. Palavras gastas de tanto serem ditas por quem não as pratica, e ainda assim as únicas que já foram testadas por séculos e seguem de pé.

Foi tentando viver isso todo dia que percebi algo bobo. No começo, estar atento, mantendo a consciência ligada, rever as próprias ações, escolher o bem mesmo quando custa, parece um esforço sobre-humano. Depois, aos poucos, vira hábito, do mesmo jeito com que voltamos a pedalar depois de tomar um tombo feio de bicicleta. Não que as coisas parem de sair dos trilhos. Elas saem, e com frequência. Mas a queda deixa de ser o fim em si e passa a ser parte do caminho, e a gente segue meio curioso para ver onde isso tudo vai dar, ou quem estará do outro lado quando chegarmos.

Sobre as máquinas que prometem nos poupar de pensar, mantenho o mesmo pessimismo diante das coisas fáceis demais. Uso, e bastante as IAs, mas como ferramenta, nunca como muleta. Quem viveu o suficiente aprendeu que tudo o que vem fácil costuma ir embora com a mesma pressa. Somos analógicos por dentro. Processamos o mundo numa velocidade que nenhuma novidade respeita, e cada onda de facilidades nos deixa um pouco mais rápidos e um pouco mais ocos. E isso tudo cansa. Cansa porque o corpo e a alma não acompanham a euforia da tela, da performance desse pessoal que vem com hashtags ou com o vídeo levantando peso em uma academia, diante de um espelho enorme.

Não tenho uma conclusão para oferecer, e desconfio de quem tem. Aliás, as dúvidas são muito maiores que as certezas. O Universo Protagonista nasceu disso, dessa teimosia de viver aquilo em que acreditamos num mundo que premia o contrário. Enquanto o tempo está passando, não prometemos nada. Nenhum salvador vai vir, e talvez essa seja a melhor notícia do seu dia. Só insistimos numa coisa: protagonista não anda sozinho. O resto a vida cuida de cobrar, e cobra mesmo, sem aviso, na hora em que a gente menos esperar.

Por isso, pare de existir e comece a viver!

Jorge Quintão – Universo Protagonista

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