Segunda-feira foi Dia das Crianças. Na quinta, em muita casa, o brinquedo novo já foi parar debaixo do sofá, a caixa está dobrada no saco do reciclável e a criança voltou a pedir o que pedia antes do presente. Às vezes é outro brinquedo. Às vezes é só que alguém sente no chão com ela.
Os números deste ano formam um pano de fundo pouco animador. O endividamento das famílias brasileiras bateu recorde pelo sexto mês seguido e chegou a 82% em julho, segundo a CNC. Para a data, a mesma entidade estimou vendas de R$ 9,27 bilhões no varejo, uma alta de apenas 1,8%, com juros e dívidas segurando o avanço. No Distrito Federal, o gasto médio previsto por compra caiu de R$ 232 para R$ 186, perto de 20% a menos. Isso revela muito sobre o consumo atual. As famílias tentam comprar afeto.
Dá para ler isso como notícia de economia e virar a página. A gente prefere ficar um pouco mais nela, porque desconfia que uma parte dessas dívidas não nasceu da necessidade. Nasceu da culpa. Do pai que chegou tarde a semana inteira e parcelou em dez vezes um pedido de desculpas com pilha incluída. Da mãe que passou o mês inteiro ausente.
O cartão aceita quase tudo
Ninguém aqui é contra presente. Um brinquedo dado na hora certa vira memória para o resto da vida, aquela bicicleta que um homem de cinquenta anos ainda descreve com detalhe, a cor do quadro, o barulho da catraca na descida da rua. Isso existe e é bom.
O problema aparece quando o objeto é chamado para cobrir um buraco que ele não tem tamanho para cobrir. E a criança percebe. Pode não ter palavra para isso, mas percebe a diferença entre o pai que entrega o pacote olhando o celular e o pai que fica para ver o que tem dentro, que ajuda a montar, que lê o manual errado e ri junto quando a peça sobra.
O caráter se forma no dia comum
Aristóteles defende, na Ética a Nicômaco, que a virtude moral vem do hábito. A pessoa se torna justa praticando atos justos, corajosa enfrentando o que dá medo. Nada disso se aprende num dia de festa com bolo e embrulho. Aprende-se numa terça qualquer, quando a criança perde no jogo e alguém ao lado mostra, sem discurso, como se perde sem jogar o tabuleiro na parede. Ou quando ela aprende a esperar a vez de falar porque, naquela mesa, as pessoas de fato conversam no jantar.
No livro VIII ele observa que os pais amam os filhos como quem ama algo de si mesmo. A frase é bonita e nos incomoda um pouco. Abre espaço para um amor que se satisfaz de longe, pelo boletim, pela foto no grupo da família, pelo presente certo comprado na promoção. Esse amor é real. Só que o filho aprende pouco com um amor que ele não vê acontecendo. O afeto real pede tempo e repetição. É preciso estar inteiro para criar raízes.
Presença também cansa
C.S. Lewis, em Os Quatro Amores, chama de afeição esse amor doméstico que cresce pela convivência, quase sem ser notado, como o casaco velho que a gente não troca. No mesmo capítulo ele descreve a Sra. Fidget, uma mulher que vivia para a família e deixava todo mundo exausto de tanto cuidado. Quando ela morre, a casa parece respirar melhor.
Convém lembrar dela antes de sair prometendo estar com os filhos o tempo todo. Tem presença que precisa ser notada, agradecida, fotografada. A criança fica com a sensação estranha de que o adulto está ali por causa dele mesmo, e ela vira plateia na própria infância.
O que os filhos costumam pedir é atenção sem encenação. Uma hora em que o celular fica na outra sala e ninguém está tentando provar nada para ninguém. Elas só querem a nossa verdade.
Onde o pilar do Carisma começa
No Universo Protagonista, um dos pilares do método é o Carisma. A ideia por trás dele é simples de dizer e trabalhosa de viver: a paz de uma pessoa depende muito da qualidade dos vínculos que ela sustenta. A família é o primeiro lugar onde isso se testa, muito antes do trabalho.
Costumamos partir de um preceito duro, ninguém vai vir te salvar. Vale para o pai também. Nenhuma loja e nenhuma escola cara vai fazer por ele a parte que é dele. Afinal, a responsabilidade de construir essa conexão recai inteiramente sobre os nossos ombros. E, mais importante do que a quantidade de tempo, é a presença real que você oferece.
Por isso o primeiro passo que propomos é quase constrangedor de tão pequeno. Reconheça onde você está, agora. Quantas noites desta semana você jantou com seus filhos? Quando foi a última vez que um deles contou alguma coisa sem que você interrompesse para responder uma mensagem? Ninguém precisa saber a resposta. Só você.
Daqui a vinte anos
A pergunta de sempre é qual lembrança seu filho vai guardar, o brinquedo ou a tarde em que vocês brincaram juntos, um sorvete num fim de tarde quente. Mas existe uma lembrança que nenhuma compra fabrica depois, a de ter tido presença. Quem cresceu sem ela costuma passar a vida adulta tentando comprá-la de outro jeito, com outras moedas. E é exatamente essa atenção inteira que constrói a segurança afetiva da infância.
Também não sabemos dizer quanto tempo basta. Uma tarde por semana, um café da manhã sem pressa no sábado, uma volta de carro só os dois. Depende da casa, do turno, do cansaço verdadeiro de quem paga as contas, e sabemos que em muita família o tempo anda tão curto quanto o dinheiro.
O brinquedo continua debaixo do sofá. Daqui a alguns anos ela para de pedir que alguém sente no chão, e nessa hora vai ser difícil saber se cresceu ou se desistiu.
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Para saber mais
- ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Livro II (virtude moral e hábito) e Livro VIII (amizade e amor entre pais e filhos).
- LEWIS, C.S. Os Quatro Amores. Capítulo sobre a Afeição.
- CNC. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), julho de 2026. Divulgada pela Agência Brasil.
- CNC. Projeção de vendas do varejo para o Dia das Crianças de 2026. Portal do Comércio.

